Em outubro de 2015, com as assinaturas da Fundação Ulysses Guimarães e do PMDB de Michel Temer, foi publicado o documento ‘Uma ponte para o futuro”. Nele, alegava-se que ressentimentos inviabilizavam consensos políticos no país e concluía, textualmente, “sem os quais nossas crises se tornarão cada vez maiores”.
Ressentimentos? Em verdade, tratava-se de terceiro turno eleitoral em manifesto de oposição, transcorridos dez meses do governo Dilma Rousseff. Revelava-se, então, a semente do golpe concretizado mais tarde, em agosto de 2016, com a derrubada, sob a fachada de impeachment, da presidenta eleita. Aliás, Michel Temer, em entrevista de 16 de setembro de 2019 ao programa Roda Viva, da TV Cultura, declarou que “eu jamais apoiei ou fiz empenho pelo golpe”. Pois é, golpe, do qual ele, sem qualquer pudor, foi beneficiário.
A tal ponte
Em “Uma ponte para o futuro” pregava-se o programa derrotado na eleição de 2014. Nesse programa, fim das vinculações constitucionais orçamentárias com saúde e com educação, bem como de indexações, fossem elas para salários ou benefícios previdenciários. E, como ponto central, exigência de idade mínima em lugar do tempo de contribuição para a concessão de aposentadorias, com intenção ainda de idade mínima crescente ao longo do tempo.
Trazia o documento a defesa da transferências de ativos públicos à iniciativa privada. Com Temer, a Petrobras foi fatiada, com subsidiárias privatizadas. Para as cobiçadas reservas brasileiras de petróleo, retorno da política de concessões a petroleiras de outros países.
Oferta de ossos
Algumas das medidas defendidas no documento foram adotadas, outras barradas. Sucedendo Temer, Jair Bolsonaro carregava a mesma cartilha, só não aplicada integralmente por conta da situação econômica e social bem ruim, quadro agravado ante epidemia que matou mais de 700 mil cidadãos no país, muitos dos quais vítimas do deliberado atraso na disponibilidade de vacinas. Uma das marcas da gestão de Bolsonaro: vacinas, não; ossos à venda nos mercados, sim.
A partir de 2027
A disputa eleitoral deste ano se dá com o candidato de oposição inspirado na lógica de Michel Temer de 2016 e de Jair Bolsonaro de 2018. É, de novo, a ponte para o futuro.
Lula é candidato à reeleição. Em seu mandato atual não se reverteram, por exemplo, muitas das medidas de fragilização de garantias a trabalhadores. Por outro lado, foram mantidos os pisos constitucionais em saúde e educação, além do vínculo de benefícios de previdência ao salário-mínimo. Interrompidas, ainda, iniciativas de entrega de patrimônio público a oligopólios ou monopólios privados.
Enaltecer feitos do atual governo ou lamentar suas fraquezas é, no momento, secundário.
O que pesa é o futuro, de fato, não a ponte que dará no abismo. Lula reeleito mantém-se a hipótese da luta por avanços. Se eleito seu opositor, nada de desenvolvimento. O país voltará à fila do osso.