Comparação adequada, embora limitada a curto período: sob o governo Lula III, o trabalhador não viu suas condições piorarem, se comparadas àquelas vividas sob os governos Bolsonaro e Temer. Mas, se não pioraram, continuam distante das adequadas.
Manchetes registram baixa taxa de desemprego em fevereiro de 2026, 5,8% diz o IBGE. O rótulo é indevido: o Instituto estima taxa de desocupação, não de desemprego. Alguém vendendo quinquilharia ou cuidando de carros estacionados nas ruas não está empregado, e sim ocupado. É um cidadão sem previdência, FGTS, tíquete-alimentação ou plano de saúde tentando faturar a refeição do dia.
Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD-IBGE), trimestre dezembro de 2025- fevereiro de 2026, estima 213,2 milhões os habitantes do Brasil, dos quais 174,9 milhões, 82%, com 14 anos ou mais de idade. Destes, 108,3 milhões, 62,%, na força de trabalho, com 102,1 milhões de ocupados e 6,2 milhões de desocupados.
Na mesma PNAD, o quadro real. No grupo por conta própria, 26,1 milhões, além de outros 13,3 milhões do setor privado sem carteira de trabalho assinada. Há 16,1 milhões enquadrados em força de trabalho subutilizada – pessoas desocupadas ou subocupadas por insuficiência de horas trabalhadas. E, para não esticar demais as estatísticas ruins, são 38,3 milhões os informais, ou 37,5% da população ocupada, e 2,7 milhões os desalentados, assim considerados aqueles que desistiram de procurar emprego.
Diz ainda o IBGE que o rendimento real habitual de todos os trabalhos a cada mês é de R$ 3.679,00, número festivamente anunciado como recorde. É para tanto?
Reforma de 2017, ampliada até 2022 e ainda não revogada
O governo Temer realizou reforma trabalhista em julho de 2017, mais tarde aprofundada pelo governo Bolsonaro. Foram rasgados mais de cem artigos da Consolidação das Leis do Trabalho em nome da, na palavra de seus autores, modernização. A iniciativa contou com o apoio da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e da Confederação Nacional da Indústria (CNI), entre outras entidades. A tal modernização instituiu o contrato de trabalho intermitente, a contratação em tempo parcial, a terceirização da atividade-fim, além da hipótese de enquadramento do empregado como pessoa jurídica, um autônomo. Decisões em cortes trabalhistas vinham reconhecendo vínculos empregatícios de trabalhadores disfarçados de pessoa jurídica. No entanto, o Supremo Tribunal Federal trouxe para si nova discussão a respeito, ainda não realizada, mas já com a simpatia de um dos ministros do STF , da denominada “pejotização”.
Ainda em 2022, Otávio Pinto e Silva, professor na faculdade de direito da Universidade de São Paulo, concluía que a reforma trabalhista “gerou uma diminuição no nível de proteção do trabalhador, uma precarização e um aumento no número de trabalhadores informais”. O professor também apontou a fragilidade daqueles em atividades por demandas de aplicativos, explicitando a importância de se debater o direito das categorias que trabalham com tecnologia.
O Primeiro de Maio lembra a luta de 1886 de trabalhadores em Chicago, nos Estados Unidos, por redução de jornada e melhores condições de trabalho. Na manifestação de então, muitos trabalhadores feridos e mortos.
Em recente discurso a representantes de centrais sindicais, o Presidente Lula criticou as reformas trabalhistas de Temer e Bolsonaro. Mencionou a necessidade do fim da escala 6×1 e, diz o portal Terra, afirmou que “nosso papel é ficar 100% do tempo em alerta, para não permitir mais retrocessos”.
Bom que não se permitam mais retrocessos, porém é imprescindível ir além. O trabalhador espera ao menos iniciativas pelo restabelecimento de direitos que lhe foram usurpados.