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30 de outubro: memória de um mundo que se acabou

Mas é preciso ter força, é preciso ter raça
É preciso ter sonho sempre
Quem traz na pele essa marca
Possui a estranha mania de ter fé na vida (em “Maria, Maria”, de Milton Nascimento e Fernando Brant)

Quarenta anos da greve de 30 de outubro de 1985, a primeira na Caixa. Foi bem-sucedida.

Bancários da Caixa que a realizaram – entre outras razões, para serem reconhecidos como bancários – viviam o movimento estudantil, a campanha por eleições diretas, o novo  sindicalismo. Viviam o fim da ditadura imposta pelo golpe de 1964. Eram cinquenta mil concursados, metade do total de trabalhadores daquele banco repleto de terceirizados e estagiários.

Meses e meses de preparação em reuniões, seminários, congressos. Naquele tempo, greve em banco interrompia as operações. A prestação de serviços bancários se realizava em agência bancária. Depósitos e retiradas, pagamento de contas e de títulos, compensação de cheques. Filas imensas e jornada de ao menos oito horas de trabalho. Nada de home banking, home office ou smartphone. Lojas lotéricas se prestavam a realizar apostas em jogos de loteria e da tolerada fezinha no jogo do bicho, onde valia o que estava escrito. A loteria da moda era a esportiva, com palpites para resultados de treze jogos de futebol a cada semana. Essa modalidade de apostas se esvaziou anos depois, quando revelada a manipulação de resultados em determinados jogos.

Empregados da Caixa em 1984 haviam encarado a demissão de doze concursados, demitidos que foram por se recusarem a prestar concurso interno de equiparação funcional a colegas que executavam as mesmas tarefas. Encararam as demissões de 1990, da Caixa dada como inchada pelo governo de então, e, nesse mesmo ano, de outros demitidos por participarem de movimento de protesto contra tais demissões. Encararam, ainda, as demissões de 1991, consequência de greve em campanha salarial.

Com a marca e a força de 1985, o movimento conquistou em 1987 a readmissão dos doze de 1984. Conquistou, em cada ano, a readmissão dos demitidos  de 1990 e 1991. Conquistou, anos depois, a readmissão de centenas de concursados dispensados sem justa causa, vítimas da RH 008. Era certo que o movimento não largava ninguém pelo caminho.

Há que se reconhecer que os trabalhadores que forjaram o movimento de então formaram-se menos com o olhar em si mesmos e mais no coletivo. Não eram melhores nem piores do que aqueles que vieram depois. Eram apenas filhos de sua época.

Agora, ao se voltar a 30 de outubro, efeméride mais importante no movimento dos empregados da Caixa, em verdade mira-se um mundo que se acabou.

E o que surgiu em seu lugar? Por enquanto, o interregno entre o antigo, já morto, e o novo, que se espera nascer.

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